Dois anos depois da morte
de Akelá na grande luta com os dholes, Mowgly completou 17 anos. Parecia mais
velho porque o intenso exercício, a forte alimentação e os banhos frequentes
lhe haviam dado força e desenvolvimento acima da idade. O povo da Jângal, que
já o temia pela astúcia, passou a temê-lo pela força.
Um dia estavam Mowgly e
Bagheera na encosta do morro frente a Waiganga. Era o fim do inverno. Sentado,
Mowgly contemplava o vale semi-desperto. Um pássaro lá embaixo trinava as
primeiras notas, ainda incertas, do canto que iria entoar na primavera. Embora
esse canto ainda fosse só um ensaio, a pantera reconheceu-o.
- Eu não disse que o tempo
das falas novas vem próximo? Relembrou ela. É Ferao, o pica-pau escarlate. Ele
não esqueceu. Ora, eu também preciso recordar o meu canto e pôs- se a ronronar
para si própria.
– Não há nenhuma caçada
para hoje, observou mowgly.
– Irmãozinho, estarão teus
2 ouvidos tapados? Isto que canto não é palavra de caça, mas canto que quero
ter pronto para a primavera.
– Tinha me esquecido.
Reconheço muito bem a chegada das falas novas, estação em que tu e os outros
correreis para longe, deixando-me sozinho, respondeu mowgly queixoso. Vós
debandais e eu, Senhor da Jângal, tenho que viver sozinho.
Até aquele ano Mowgly se
deleitara com o retorno das estações. Era ele quem, antes de todos, descobria o
primeiro olho da primavera e as primeiras nuvens da estação. Sua voz era ouvida
em todos os lugares, a fazer coro com os outros animais. Como para todos os
outros, a primavera era para ele o tempo de correr, só pelo prazer de correr do
anoitecer ao amanhecer e voltar ofegante, rindo-se, cheio de flores raras.
O povo da Jângal está
constantemente ocupado na primavera; Mowgly via-os sempre rosnando, uivando,
gritando, piando , silvando, conforme a espécie de cada um. Suas vozes
mostram-se diferentes então; e por isso a primavera no Jângal é chamada o Tempo
das falas Novas.
Mas naquela estação o humor
de Mowgly estava mudado, quando tentava responder algum animal as palavras
embaraçavam-se-lhe nos dentes, uma sensação de pura infelicidade o invadiu da
cabeça aos pés.
– Comi bem , disse o rapaz
a si próprio, bebi bem, minha garganta não arde nem aperta.
Mas tenho o estômago
pesado e tratei mal a Bagheera e outros. Ora me sinto quente, ora frio; ora nem
quente nem frio, mas apenas furioso contra não sei que. Ah-ah! É tempo de dar
minha carreira. Esta noite cruzarei as montanhas; sim darei uma corrida de
primavera até os pantanais do norte, ida e volta. De muito que caço sem
esforço, isto me enerva.
Como não encontrou nenhum
de seus irmãos lobos para correrem juntos, Mowgly saiu sozinho, aborrecido por
isso.
Assim correu ele aquela
noite, ás vezes gritando, ás vezes cantando; correu até que o cheiro das flores
o visou que estava próximo dos pantanais e longe, muito longe do seu Jângal.
Avistou uma estrela bem baixa e olhou pelo canudo da mão.
– Pelo touro que me
comprou é a flor vermelha, a flor vermelha que deixei pra trás de mim quando me
mudei para a alcatéia de Seoni. Agora, que a vejo de novo, dou por fim a minha
corrida.
Mowgly correu
descuidadamente pela relva úmida até alcançar a cabana de onde vinha a luz.
Uns cães latiram. Ele
emitiu um profundo uivo de lobo que fez os cães calarem. A porta da cabana
abriu-se e uma mulher espiou no escuro. Dentro, uma criança começou a chorar.
– Dorme, disse a mulher.
Foi algum chacal que uivou para os cães.
Escondido nos arbustos,
mowgly tremeu. Aquela voz, ele a conhecia. Mas para melhor se certificar,
gritou baixinho, surpreso de ver como a língua dos homens lhe vinha fácil:
– Messua! Messua!
– Quem chama? A mulher
indagou com voz trêmula.
– Nathoo! Respondeu
Mowgly, pois fora esse o nome que lhe dera Messua quando o encontrou pela 1ª
vez.
– Vem meu filho.
Ela o acolheu, deu-lhe de
beber e comer e apresentou-lhe o irmãozinho. Cansado Mowlgy deitou-se e
mergulhou em profundo sono. Quando acordou Messua sorriu e serviu-lhe outra
refeição. Nesse instante irmão Gris chamou-o lá fora. Era hora de ir.Messua
pôs-se ao lado de Mowgly humildemente ele era realmente um Deus da Jângal, mas
quando o viu abrir a porta para sair, a mãe que havia dentro dela a fez
abraça-lo várias vezes.
– Volta outra vez,
repetiu Messua. De dia ou de noite, esta casa estará sempre de porta aberta pra
ti.
A garganta de Mowgly
aperto-se. Sua voz parecia como que arrancada à força quando respondeu: Sim,
voltarei!
- E agora, murmurou
depois que saiu, tenho minhas contas a ajustar contigo, irmãi Gris. Por que vós
4 não viestes quando vos chamei, há tanto tempo?
– Tanto tempo? Foi ontem,
eu... nós estávamos cantando no Jângal os novos cantos, porque o tempo das
falas novas é chegado. Não te lembras?
- É verdade, é verdade...
- E logo depois dos
cantos, segui teu rastro. Passei à frente dos outros e vim até aqui. Mas, ó
irmãozinho, que te aconteceu que estás de novo comendo e dormindo na alcatéia
dos homens?
- Se tivesses vindo
quando te chamei, isto nunca se daria, respondeu Mowgly, apressando o passo.
- E agora como será? -
Perguntou o lobo.
Mowgly ia responder, quando
uma mocinha trajada de branco surgiu no caminho que levava à aldeia. Mowgly
segui-a com os olhos por entre os talos de milho até que seu vulto se perdeu ao
longe.
- E agora? Agora não
sei... respondeu finalmente, suspirando. Porque não vieste quando te chamei?
- Nós te seguimos -
murmurou o lobo. Nó te seguimos sempre, exceto no tempo das falas novas.
- E me seguireis na
alcatéia dos homens também?
- Não o fizemos na noite
em que os de Seoni te expulsaram do bando? Quem te despertou quando dormias nas
roças?
- Sim, mas me seguireis
de novo
– Não te segui eu esta
noite?
– Mas me seguireis
sempre, sempre,sempre e outra vez, outra vez e outra vez, irmão Gris?
O lobo calou-se por uns
instante. Quando abriu a boca foi para dizer a si próprio:
- A pantera negra falou
verdade...
E disse que...
... que o homem volta
sempre para o homem, no fim Raksha , nossa mãe, também disse.
E Akelá também na noite
do ataque dos Dholes, acrescentou Mowgly.
E também Kaa, a serpente
da rocha, que possui mais sabedoria do que todos nós.
- E tu irmão gris, que
disses tu?
Eles já te expulsaram uma
vez. Eles te feriram nos lábios com pedra. Eles mandaram Buldeo matar-te. Eles
queriam lançar-te na flor vermelha. Tu e não eu , disseste que eles eram muito
maus e insensatos. Tu, e não eu, eu sigo meu próprio povo, foste admitido no
Jângal por causa deles. Tu, não eu compuseste cantos contra eles, ainda mais
amargos que os nossos contra cães vermelhos.
– Pára! Que estás
dizendo?
O lobo Gris ficou uns
instante calado, depois falou:
– Filhote de homem,
senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna: embora eu fraqueie nas
primaveras, o teu caminho é o meu caminho, o teu antro é o meu antro, a tua
caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte. Falo por mi
e pelos outros 3. Mas que irás dizer ao Jângal?
- Bem pensado. Vai e
reune o conselho na Roca, que quero dizer a todos o que tenho no coração, mas
talvez não compareçam: no tempo das falas novas todos esquecem de mim...
– Só isso? - Perguntou o
lobo Gris, pondo-se em marcha.
Em qualquer outra estação
aquela novidade teria reunido na Roca o povo inteiro do Jângal; mas era o tempo
das falas novas e andavam todos dispersos, caçando, matando. Para um e para
outro, corria o lobo Gris com a nova:
– O senhor do Jângal
volta para os homens! Vamos à Roca do Conselho!
E ruidosos e felizes os
animais respondiam:
– Retornará nos calores
de verão. Vem cantar conosco.
– Mas o senhor do Jângal
volta para os homens, repetia.
– E daí! O tempo das
falas novas perde alguma coisa com isso?
Desse modo, quando
Mowgly, de coração pesado chegou à Roca, onde anos atrás fora trazido ao
conselho, apenas encontrou lobos irmãos, Baloo, que já estava quase cego e a
pesada Kaa enrodilhada sobre a pedra de Akelá, ainda vaga.
– Termina então aqui o
teu caminho, homenzinho? Perguntou a serpente, logo que Mowgly se sentou. Grita
o teu grito! Somos do mesmo sangue, eu e tu, homens e serpentes!
– Porque não morri nas
garras dos dholes, gemeu Mowgly. Minha força esvaiu- se e não foi veneno. Dia e
noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto a cabeça sinto que
alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás
das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que
alguém me ouve e se guarda de responder. Se me deito, não consigo descanso.
Corria corrida da primavera e não sosseguei. Banho-me e não me refresco. O
caçar enfada-me. A flor vermelha está a ferver em meu sangue. Meus ossos
viraram água. Não sei o que...
– Para que falar?
Observou Baloo. Akelá disse que Mowgly levaria Mowgly para a alcatéia dos
homens outra vez. Também eu o disse, mas que ouve Baloo? Bagheera, onde está
Bagheera esta noite? Ela também sabe disso, é da lei.
– Quando nos encontramos
nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia. - acrescentou Kaa... - Homem vai
para homens, embora o Jângal não o expulse.
– A Jângal não me
expulsa, então? Sussurou Mowgly.
O irmão Gris e os outros
3 uivaram furiosamente:
– Enquanto vivermos
ninguém ousará...
Mas Baloo interrompeu:
– Eu ensinei-lhe a lei,
disse. A mim cabe falar, embora meus olhos não vejam a pedra que está perto,
enxergam tudo que está longe. Rãzinha, toma teu trilho, faz teu ninho com
esposa do teu próprio sangue e de tua raça; mas quando necessitares pata, olho
ou dente, lembra-te, senhor do Jângal, que todo o Jângal acudirá o teu apelo.
– Também o Jângal médio
estará contigo , disse Kaa. Falo por um povo muito numeroso.
– Ai de mim! Exclamou
Mowgly em soluços. Eu não sei o que sei! Não vou, não vou, não quero ir, mas
sinto-me arrastado por ambos os pés. Como poderei deixar de viver estas noites
do Jângal?
– Ergue os olhos,
irmãozinho, disse Baloo. Não há mal nisso. Quando o mel está comido,
abandonamos os favos.
– Depois que soltamos a
pele velha, não podemos vestir de novo, ajuntou Kaa. É da lei.
– Ouve querido de todos
nós, disse Ballo. Não há aqui, nem haverá, palavra que te detenha entre nós.
Ergue os olhos! Quem ousará interpelar o senhor do Jângal? Eu te vi brincando
no pedregulho, lá embaixo, quando não passava de pequenina rã; e Bagheera, que
te comprou pelo preço de um touro gordo, viu-te também. Daquela noite do “
Olhai, olhai bem ó lobos!”, só ela e eu restamos de testemunhas; Raksha, tua
mãe adotiva, está morta, teu pai adotivo está morto; a velha alcatéia daquele
tempo não existe; tu sabes o fim que teve Shere-Kahn e viste Akelá acabar entre
os dholes, que nos teriam destruído se não fosses tu. Só vejo ossos, velhos
ossos. Hoje não é o filhote de homem que pede licença a sua alctéia, é o senhor
do Jângal que resolve mudar de caminho. Quem pedirá contas ao homem do que ele
quer ou faz?
– Bagheera e o touro que
me comprou! Respondeu Mowgly. Eu jamais...
Suas palavras foram
interrompidas por um rumor nas moitas próximas. Lépida, forte e terrível como
sempre, Bagheera acabava de saltar para dentro do grupo.
– Pelo que acabas de
dizer - disse ela, estirando o corpo - não vim. Andei em caçada longa, mas
agora ele está morto na relva, um touro de 2 anos, o touro que te vai libertar,
irmãozinho!
Todas as dívidas assim
ficam pagas. Além disso, minha palavara é a palavra de Baloo.
A pantera lambeu os pés
de Mowgly.
– Lembra-te que Bagheera
te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou
e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre
que Bagheera te ama.
– Tu a ouviste, murmurou
Baloo. Nada mais há a dizer. Vai agora, mas antes vem a mim. Vem a mim, ó sábia
rãzinha!
– É difícil arrancar a
pele, murmurou Kaa, enquanto Mowgly rompia em soluços com a cabeça junto ao
coração de urso cego, que tentava lamber-lhe os pés.
– As estrelas desmaiam,
concluiu o lobo Gris, de olhos erguidos para oa céu. Onde me aninharei
doravante? Porque agora os caminhos são novos...
